Uma folha em branco, por favor?

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Naquele último segundo, de respiração suspensa e olhos pairando acima do ar, juramos sempre em silêncio que, a partir do próximo segundo, tudo será diferente. Que distância é essa que um segundo tem do outro que vem logo a seguir que os tornam tão diferentes? E que diferença é essa que tanto ansiamos? O que o dia de hoje terá de tão amargamente diferente do que sonhamos para amanhã?

 

Não sei. E ninguém sabe. Só sei que desejamos. Que ansiamos. Que prometemos. Que juramos. E pulamos sete ondas. E jogamos palmas ao mar. E comemos sei lá quantas uvas e tantos caroços de romã são jogados não sei onde. Tomamos banho de sal grosso e desejamos profundamente que a limpeza seja maior do que a diária, que aquela água e aquele sal – que de forma misteriosa significam muito mais do que água e sal – enxague os cantos empoeirados da alma e deixe frescor para esse ritual de passagem que os homens inventaram para se renovarem a cada 365/366 dias. Todos os anos.

 

Então isso significa que eu poderia ter escrito essas mesmas linhas na primeira semana de 2013 ou 2012, de 2011, de 2010… e por quantos anos eu consigo me lembrar. Só não me lembro de todas as promessas feitas, mas posso imaginar. Tenho como deduzir, pensando em quantas coisas eu desejei profundamente mudar ou fazer acontecer. Quantas realmente mudaram? Difícil dizer. Eu mudei, cresci, realizei, não tenho como negar. Mas foram as mesmas coisas que desejei naqueles primeiros segundos de cada ano que virou?

 

Isso me faz pensar sobre a relevância do que se deseja. Ou sobre o poder que temos de agir sobre nossos desejos e intenções.

 

Na primeira semana de 2012, eu desejava, entre tantas coisas, duas em especial. Uma delas era escrever. Mais, sempre, melhor, para bem, para mal, até a exaustão de minhas forças e minhas ideias. Comecei então um texto. Sobre? A virada do ano, muito criativo. Fazia um paralelo entre a epopeia de um réveillon em Copacabana, debaixo de muita chuva e muito espumante, e os meses, estações, voltas e reviravoltas de 2011. Acho que parei em março (do passado de 2011). Devia ter outra coisa para fazer, deixei para daqui a pouco. Quando vi, já era março (de 2012). E nada daquilo fazia mais sentido. O que, então, eu tinha feito da minha promessa? Nada. Ou quase nada.

 

Mas… eu trabalho escrevendo, muitos argumentariam. Sim, e nesse sentido eu realizei muito em 2012. Ao mesmo tempo, não realizei nada. Uma amiga costuma dizer que a gente precisa aprender a transformar tudo aquilo que pensa e cria em valor monetário. Eu fico calada. Com tristeza, penso que sei, sim, ganhar valores monetários com o que faço (claro, nunca é tanto quanto se gostaria, mas…), me falta é criar outros valores naquilo que desejo e imagino. Naquilo que crio.

 

Enfim, quando o último dia de 2012 chegou, uma inquietação corroía minha pele, veias e neurônios. Uma voz dizia na minha cabeça que não seria tanto o que se quer ou se deseja, e sim o que é necessário acontecer.

 

Eu precisava ruminar um pouco esse capim que cresceu na minha cabeça. Mas as tantas funções necessárias para que se vire um ano (comprar palmas, tomar banho de sal grosso, dizer milhares de vezes que aquela é a última vez que se faz isso ou aquilo…) não me deixaram. Foi no meio da festa ao meu redor que eu senti que precisava escrever algo. Era um bilhete. Podia ser para Iemanjá, para Deus e todos os santos, para os fantasmas do além, para o futuro ou o destino, ou quem quer que seja. Era para mim mesma. Pedia que acontecesse tudo aquilo que precisava acontecer.

 

Por favor, não me pergunte o que eu quis dizer para mim mesma com isso. Não sei. Só sei que precisava escrever.

 

Acho que é disso que eu preciso: precisar. Se desejo ou sonho, entendo quando não se realiza. Não me culpo. Me perdoo. Afinal, não é possível ter tudo que se deseja. Mas se é algo que preciso… Preciso respirar. Preciso comer. Preciso dormir. Preciso pensar. Preciso escrever? Se eu preciso, não me resta muito a fazer. Então escreverei.

 

 

Do que mais eu preciso em 2013:

 

–       de um tempo para cada coisa (mesmo que seja tão relativo…);

–       de cada coisa em seu lugar (mesmo que eu só me entenda na minha desorganização);

–       de um lugar para cada criação (mesmo que sejam fictícios ou planos da imaginação – melhor assim, pensando bem);

–       de criar – histórias, projetos, desejos, planos, arquiteturas, personagens, formas de ganhar a vida: das contas para pagar ao ar que preciso respirar;

–       de uma folha de papel em branco (sem medo de encarar de frente).

 

PS: quando sentei para escrever essas linhas, o céu resolveu desabar sobre Belo Horizonte, água há muito esperada. Pensei: resolvi escrever, choveu. Mas, sei não… isso tá com cara de recado de Iemanjá.  

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janeiro 7, 2013 at 10:07 pm Deixe um comentário

Peças de portfolio

Caros leitores, clientes, amigos e aqueles que tão só a passeio por aqui,

numa tentativa (confesso: desesperada) de atualizar meu portfolio (e como promessa a mim mesma e à minha Coach), resolvi ceder algumas horinhas do meu tempo um bocado corrido ultimamente, para ir colocando peças novas de quando em quando. Apesar de que “novas” é modo de dizer, bem entre aspas. As que coloquei hoje são antiguinhas mesmo (chame de vintage, que fica chique). Prometo que as próximas serão mais recentes.

 

Descobri que montar o portfolio é igual fazer academia: você sabe que vai ser bom, sabe que tem que fazer, sabe que depois de ter feito, vai ficar bem feliz, mas, misteriosamente, vai adiando, encontrando uma falta de tempo incrível, uma indisposição… Pois é, então, cá estou eu. Ontem comecei a academia. Hoje comecei a postar coisinhas no portfolio. Um pouquinho de cada vez, tanto num quanto no outro, que é para não assustar o corpo desacostumado, nem desesperar com as horas que se passam em frente ao computador sem progredir num projeto com prazo estrangulado. Enfim, de alguma maneira a gente tem que fazer…

 

E, para meu esforço não ser em vão, dá uma olhadinha lá, vai?

A primeira é o encarte de um CD especial que a rádio Guarani deu para os participantes da Casa Cor. Foi feito em 2008, em conjunto com a 18 Comunicação, agência que atendia a Guarani na época.

 

 

As outras peças são dessas que a gente tem um apreço e não sabe bem porquê. Acho que é a preguiça de fazer cartão de “Dia do…”, mas, de repente, um ou outro saem legais. E desses eu gosto. Um é para o Dia da Mulher, outro é para o Dia do Médico, feitos para a BS Pharma entregar aos seus clientes. A arte é da Designlândia, onde eu trabalhava na época em que foram feitos (acho que em 2005 ou 2006).

 

      

 

 

agosto 19, 2011 at 2:36 pm Deixe um comentário

É porque

Detesto a vida plana e insípida.

 

Se a cozinha está desarrumada, é porque saboreamos.

Se meu cabelo está atrapalhado, é porque saí ao vento.

Se a roupa está suja, é porque nos deixamos levar.

Se tenho rugas, é porque chorei, é porque sorri.

Se me machuquei, é porque me arrisquei.

Se a vida anda desorganizada, é porque a cabeça tem outros planos para organizar e o coração outras sensações para acomodar.

 

Se tenho arrependimentos ou orgulhos, é porque vivi.

agosto 4, 2011 at 1:55 pm 2 comentários

Sobre relacionamentos e panelas

Então, aconteceu que um dia a Laura Henriques, que era uma bonitona encalhada, desencalhou. Mas ela continuou falando as coisas de bonitona de sempre. E, numa dessas, ela me disse – na verdade, ela escreveu no blog, pra todo mundo, mas às vezes a gente acha que estão dizendo pra nós, assim, cara a cara, não é? – que relacionamentos e panelas de pressão guardam a nostalgia de quando eram consertados, ao invés de descartados.

 

Relembrando antigos hits belorizontinos, de lojas que faziam comerciais com Marias e Manueis saindo de panelas, além, é claro, de consertarem panelas de pressão, Laura descobriu (coisas de gente que recém-desencalhou) que ninguém mais conserta esse precioso e perigoso item da cozinha. Hoje é mais fácil, prático, talvez até mais barato, jogar fora a antiga e comprar uma nova. E seguimos fazendo isso, com máquinas de lavar, geladeiras e panelas, roupas, sapatos, móveis, carros, pessoas. A mesma espécie de relacionamento fugaz e superficial que temos com nossas panelas de pressão também podemos ter com pessoas em nossas vidas.

 

 

O que nos faz consertar uma panela, uma geladeira, uma roupa? Quanto custa esse esforço? Vale a pena? E quanto nos custa consertar um relacionamento? Quanto vale remendar, trocar pequenas e fundamentais peças, dar novo polimento, ou simplesmente aceitar aqueles puídos, arranhões e desbotamentos como parte vital do processo de amadurecimento das coisas vivas e eternamente em mutação, deterioração e renovação? Talvez seja nestas pequenas imperfeições que o tempo trouxe que resida a maior graça do estar junto, do manter, do entender a história viva.

 

E então eu ia refletindo isso tudo e algumas coisas a mais na mesa de almoço dos meus avós, onde papos profundos e superficiais ganham igualmente ares de história vivida e sempre novos contornos dramáticos, nas vozes, comentários e recordações de Dona Dalva e Doutor Júlio. Foi quando, no meio da minha divagação sobre o paralelo sutil entre relacionamentos e panelas e suas variações de tempo, necessidade e pressão, eu percebi que o rosto de vovó ia ganhando um tom enigmático, de quem tem uma pérola de sabedoria para dizer. Algo que eu, na minha ínfima idade e experiência, se comparada a eles, custaria alguns anos para entender.

 

–       Mas, existe um segredo sobre panelas de pressão, Luísa, que é saber comprar. Eu por exemplo, estou adorando uma panela de pressão que comprei, e custou caro, viu? Lá na Tool Box, do shopping. A marca é alemã, muito boa, vale a pena. Não estraga não. Porque, realmente, essas panelas que a gente acha vendendo na rua, não serve pra nada, só para jogar fora. É perigoso, sabe?

 

Eu sabia sim… E sorri para os meus avós, carinhosamente, achando uma graça incrível de como, de tudo que eu falei ali, vovó Dalva só pescou a parte das panelas de pressão que não se consertam mais. E depois de abusar das sobremesas deliciosamente mineiras que eu só me permito ali, na mesa de almoço de meus avós, voltei para o trabalho com outras coisas importantes na cabeça para resolver.

 

Foi só depois que eu me toquei. Quem não pescou a pérola de sabedoria – bem escondida dentro da sua concha, diga-se de passagem – fui eu. Ali, naquele adorável casal bem na minha frente, estava o maior exemplo de como importa sim que se compre uma panela boa. Porque se fosse qualquer uma, comprada nas ruas do centro, sem valia e serventia, não estava durando 60 anos.

 

Dona Dalva, na verdade, não falava só de panelas caras de shopping ou de baratas de camelô. Sutilmente, ela estava me mostrando, no mesmo paralelo entre panelas e relacionamentos, que o que importa na decisão de consertar algo ou não é a qualidade do material original.

 

Encontrou o amor da sua vida numa esquina de camelô? Desconfie. Talvez, na hora que ele não aguentar mais a pressão de tamanha nomenclatura, vá pifar. E realmente não tem conserto, é jogar fora e partir pra outra. Mas, aí, o segredo é bater perna. As melhores marcas, as que realmente valem a pena, a história e qualquer nomeação que você queira dar, não estão por aí, anunciadas com os melhores preços da vitrine. Custam caro. E, o mais importante, não dão garantia nenhuma de que nunca vão soltar a borrachinha da pressão, nem arranhar, ou desbotar.

 

Mas relacionar-se, com panelas ou com pessoas, é isso. Investir, avaliar, consertar o que o desgaste do tempo causou, remodelar e, especialmente, amar cada detalhe que só sua panela tem, desde a cor e o brilho dela novinha até o arranhão na lateral de quando você deixou cair, aquela mancha de queimado, o cabo que derreteu um pouquinho na hora que ela, pela primeira vez, explodiu. Sem nunca esquecer do sabor da comida que ela faz.

julho 28, 2011 at 4:06 pm 7 comentários

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